Os fios que nascem das mãos das bordadeiras de Timbaúba dos Batistas, no Seridó potiguar, cruzaram mais uma fronteira. Desta vez, chegaram ao palco da 26ª edição do Grammy Latino, na noite dessa quinta-feira (13), em Las Vegas. O pernambucano João Gomes, vencedor do prêmio de Melhor Álbum de Música de Raízes em Língua Portuguesa com o projeto Dominguinho, apareceu usando um conjunto de linho bordado pelas artesãs da região, em parceria com a estilista Helô Rocha, o stylist Pedro Sales e a Riachuelo.
A roupa, porém, não foi produzida diretamente em Timbaúba. O que viajou até Las Vegas foram recortes, sobras de pilotagens, pedaços de calças, coletes e outras peças artesanais feitas pelas artesãs para a nova coleção que ainda será lançada em parceria com a Riachuelo. Fragmentos que, unidos, criaram uma peça única, direcionada exclusivamente para o artista. Uma ironia bonita: aquilo que seria descartado se transformou em símbolo elevado aos holofotes.
O público viu o brilho, mas, por trás do linho claro, havia outras histórias: de uma tradição que atravessa gerações e encontra, aqui e ali, uma nova chance de ser percebida.
Timbaúba dos Batistas é pequena e isolada. “Só vem a Timbaúba quem vem buscar alguma coisa aqui”, costuma-se dizer. Mas quem chega encontra uma tradição que sustenta famílias há décadas. Cerca de 300 bordadeiras trabalham na Casa das Bordadeiras, espaço criado pela prefeitura para garantir oficinas, cursos e estrutura mínima para produção.
A associação reúne bordadeiras que tornaram-se responsáveis por manter acesa uma tradição que já encontrou seu lugar no mundo mais de uma vez. O trabalho delas já desfilou na abertura das Olimpíadas de 2024, nos uniformes da delegação brasileira, um desafio de mais de 2 mil peças produzidas em apenas quatro meses. E, antes disso, apareceu no vestido de casamento da primeira-dama Janja Lula da Silva, e ainda na roupa usada por ela na posse presidencial. Foi a partir dessa ocasião que, para além dos seus trabalhos, os olhares se voltaram diretamente para as bordadeiras. A equipe da primeira-dama fez questão de conhecer a cidade e apertar as mãos de quem produziu a arte.
Antes disso, porém, o trabalho das artesãs já havia ganhado os olhos da estilista Helô Rocha, que levou o bordado para o São Paulo Fashion Week.
A Cooperativa das Mãos Artesanais de Timbaúba dos Batistas (Comart), fundada em 2003, virou eixo central para garantir renda digna e organização. É com ela que as parcerias acontecem, que as notas fiscais são emitidas, que o material chega sem custo abusivo. É ela que sustenta a ponte entre talento e mercado. E ninguém narra essa trajetória como Jailma Araújo, presidente da cooperativa. As palavras que ela expressa ajudam a entender como um trabalho que durante muito tempo foi invisibilizado chegou ao Grammy:
“A cooperativa foi criada porque o bordado é a maior fonte de renda da cidade. Grande parte da população é bordadeira. Para vender, para fazer parceria, para emitir nota, a gente precisava de uma estrutura. Foi aí que nasceu a Comart. Por muito tempo, o bordado era conhecido como de Caicó. Lá tem bordadeiras, sim, mas a maior parte do que era chamado de ‘bordado de Caicó’ vinha daqui de Timbaúba.”
O reconhecimento não chegou sozinho. Veio de forma lenta, às vezes dolorida, carregado por gerações de mulheres que aprenderam o ofício aos 10 ou 12 anos de idade. A maioria aprendeu bordado com suas mães e avós. Jailma deixa claro como hoje, com a maior valorização do trabalho, a vida de mulheres artesãs foi mudada:
“Muitas bordadeiras ganhavam 300, 400 reais por mês. Hoje, a que ganha menos recebe um salário e meio. Tem quem chegue a dois salários. Isso muda tudo: muda a casa, a vida, a autoestima.”
O encontro com a Riachuelo e a virada
O ponto de virada veio quando o Instituto Riachuelo conheceu o trabalho local. A marca passou por Caicó, seguiu até Timbaúba e, ali, encontrou algo diferente: a precisão, a delicadeza, o acabamento mais apurado. “Os pontos daqui são mais aperfeiçoados”, diz Jailma.
Daí surgiram projetos que levaram o bordado para vitrines na Avenida Paulista, ações de qualificação, coleções especiais e, finalmente, o trabalho para as Olimpíadas. Com o novo fluxo de encomendas, surgiu também a necessidade de abrir um galpão de produção para evitar perdas e garantir qualidade. Hoje, 60 bordadeiras trabalham em três turnos. No galpão, elas conseguem corrigir erros antes que o tecido seja perdido, algo impossível quando tudo era feito em casa.
Fragmentos de uma coleção que ainda não nasceu
A peça usada por João Gomes tem algo de poético. Era feita de retalhos de uma coleção que ainda está sendo concluída. Enquanto a cooperativa finalizava os últimos bordados para a estilista Helô Rocha, as sobras já estavam no palco do Grammy. A notícia chegou como surpresa:
“Nós não sabíamos que os recortes seriam usados. Quando vimos, foi uma emoção enorme. Achamos que era o lançamento da coleção. Depois percebemos que eram pedaços de peças que a gente fez aqui.”
Bordados serão apresentados a representantes de mais de 200 paísesna COP30
A visibilidade traz novas portas. A cooperativa passou a participar de feiras, foi convidada para eventos e agora prepara material trilingue para chegar ao mundo. Neste sábado (15), Jailma, junto com outras bordadeiras, deve embarcar para a COP30, onde dará oficinas e mostrará técnicas do Seridó a representantes de mais de 200 países.
O sonho agora é exportar. É ocupar vitrines internacionais com o mesmo bordado que nasceu no silêncio das salas, em meio a panelas no fogo e crianças correndo pelo quintal.
Os pontos da roupa de João Gomes vieram de várias peças originais: vestidos, camisas, almofadas, shorts. Cada fragmento carregou um pedaço da vida de quem borda desde menina e aprendeu, com paciência, que cada ponto precisa do outro para existir.
Timbaúba dos Batistas segue onde sempre esteve: fora das rotas, fora da pressa, fora do barulho das grandes cidades. Mas suas agulhas, finas e insistentes, seguem riscando o tecido do mundo. E cada vez que um ponto atravessa fronteiras, não é só um bordado que se exibe, é a história de uma cidade inteira que, enfim, se deixa ver.
“Quando ele [o bordado] é destaque aqui no Brasil, a gente já fica feliz, mas quando ele ultrapassa as fronteiras, é muita emoção, é muito mais do que nós sonhamos um dia.”